06/06/2024 20:49

Com oposição sufocada, Putin é reeleito com quase 90% dos votos

O presidente russo, Vladimir Putin, reeleito com folga para um quinto mandato em uma eleição sem oposição real, traçou o quadro de uma Rússia “consolidada” por sua vitória e alertou que não se deixará “intimidar” pelos adversários. O chefe de Estado recebeu mais de 87,33% dos votos após a apuração oficial de 99% das urnas, informou a agência oficial RIA.

Em um discurso ao país, o presidente agradeceu aos que compareceram para votar e contribuíram para criar as condições para a “consolidação política interna”, dois anos após o início da ofensiva na Ucrânia e da adoção de sanções sem precedentes pelas potências ocidentais.

Putin, um ex-agente da KGB de 71 anos, está no poder desde o último dia de 1999 e permanecerá pelo menos até 2030. Se completar mais um mandato, terá permanecido no poder mais do que qualquer outro líder russo desde Catarina, a Grande, no século XVIII.

Ele não teve opositores reais nessas eleições, depois da exclusão de dois candidatos contrários ao conflito na Ucrânia. O ex-presidente e número dois do Conselho de Segurança russo, Dmitri Medvedev, aplaudiu a “vitória esmagadora” de Putin.

“A Rússia escolheu”, declarou a chefe da Comissão Eleitoral, Ella Pamfilova, que indicou que a participação atingiu o recorde de 74,22%.

Putin agradece aos russos

Putin agradeceu aos russos por votarem nas eleições presidenciais e saudou os soldados que combatem na Ucrânia. “Quero agradecer antes de tudo aos cidadãos, somos todos uma única equipe, a todos os cidadãos da Rússia que foram às urnas e votaram”, declarou Putin perante sua equipe de campanha em uma aparição transmitida pela televisão estatal.

Ele afirmou que seu país não será “intimidado” nem “suprimido”. “Nunca ninguém conseguiu fazer isso na história. Isso não funcionou hoje e não funcionará no futuro. Nunca”, assegurou no discurso. Acrescentou que os resultados das presidenciais lhe deram uma ampla vitória, demonstrando a “confiança” dos russos em seu poder.

Disse ainda que suas tropas têm a vantagem no front da Ucrânia e prometeu novamente que os objetivos da Rússia serão “alcançados”. “No geral, a iniciativa pertence inteiramente às forças armadas russas e, em algumas regiões, nossos homens estão vencendo o inimigo”, afirmou.

O presidente também comentou que a morte na prisão do opositor russo Alexei Navalny é um “acontecimento triste” e que, antes de seu falecimento, desejava uma troca de prisioneiros que o incluísse. Ao mencionar o nome de Navalny em público pela primeira vez em anos, Putin disse: “No que diz respeito ao senhor Navalny. Sim, ele faleceu. É um acontecimento triste.”

“Dias antes da morte do senhor Navalny, alguns colegas me disseram… Há uma ideia de trocar Navalny por algumas pessoas presas em países ocidentais… E eu disse que estava de acordo”, acrescentou.

Equipe de Navalny critica resultado

A equipe do opositor russo Alexei Navalny, que morreu na prisão, denunciou um resultado que não tinha “nenhum vínculo com a realidade”. A ofensiva na Ucrânia, iniciada por Putin em fevereiro de 2022 e sem fim à vista apesar das dezenas de milhares de mortos, foi o pano de fundo da votação, especialmente com um aumento dos ataques contra o território russo nesta semana.

Após a divulgação dos primeiros resultados, o presidente ucraniano, Volodimir Zelensky, afirmou que Putin está “embriagado pele poder” e quer “reinar eternamente”. O Reino Unido lamentou a falta de eleições “livres e justas” na Rússia, enquanto a Polônia ressaltou que a eleição russa “não é legal, livre nem justa”.

A China, principal aliada da Rússia, felicitou nesta segunda-feira o presidente russo pela sua vitória e afirmou que as relações entre os dois países “continuarão progredindo”.

Essas eleições ocorreram um mês após a morte em uma prisão no Ártico de Navalny, principal opositor do Kremlin. Os apoiadores de Navalny instaram os eleitores a comparecerem coordenadamente ao meio-dia nas seções eleitorais.

Alguns responderam ao chamado em Moscou e afirmaram à reportagem que compareceram para homenagear a memória de Navalny e mostrar sua oposição da única forma legal possível. Sua viúva, Yulia Navalnaya, que votou na embaixada russa em Berlim, disse ter escrito o nome de seu falecido marido em sua cédula de votação. “É claro que escrevi ‘Navalny’ porque não pode ser que um mês antes das eleições, o principal opositor a Putin, que já estava na prisão, tenha sido assassinado”, declarou Navalnaya à imprensa.

Em todo o mundo, também houve filas nas embaixadas russas, com multidões especialmente numerosas em Paris e Berlim, onde dezenas de milhares de russos vivem exilados.

Protestos nas eleições

No geral, as ações da oposição ocorreram tranquilamente, mas a ONG especializada OVD-Info informou pelo menos 77 detenções por diversas formas de protesto eleitoral.

A dissidência pública tem sido duramente punida na Rússia desde o início da ofensiva contra a Ucrânia, e as autoridades alertaram contra os protestos eleitorais.

A semana eleitoral foi marcada por ataques aéreos mortais e tentativas de incursões terrestres a partir da Ucrânia em solo russo, em resposta aos bombardeios e ataques diários da Rússia contra seu vizinho há mais de dois anos.

(AFP)

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